quinta-feira, 10 de maio de 2018

CRÔNICA: UM DIA EM SALA DE AULA - FERNANDO SABINO - COM GABARITO

CRÔNICA: UM DIA EM SALA DE AULA
                       Fernando Sabino
    Dona Risoleta, professora de religião, tinha horror a baratas. E vejam só o que aconteceu quando seus alunos descobriram isso.
         Magricela como Olívia Palito, mulher do Popeye, parecia um galho seco dentro do vestido escuro. Era antipática e ranzinza. Usava óculos de lentes grossas: não enxergava direito, vivia confundindo um aluno a outro.
        A aula de religião não contava ponto nem influía na nossa média, mas a diretora nos obrigava a frequentar.
        Um dia apareceu uma barata na sala de aula. Descobrimos então que Dona Risoleta tinha horror a baratas: soltou um grito, apontou a bichinha com o dedo trêmulo e subiu na cadeira, pedindo que matássemos. Era uma barata grande, daquelas cascudas.
        A classe inteira se mobilizou para matá-la. Foi aquele alvoroço: empurrões, cotoveladas, pontapés, risos e gritaria, todos querendo atingi-la primeiro. E a coitada, feito barata tonta, escapando no chão. Até que, de repente, tive a sorte de dar com ela passando a correr entre meus pés - e esmigalhei-a em uma pisada só.
        Fui aclamado como herói, vejam só: herói por ter matado uma barata. Até Dona Risoleta me agradeceu trêmula, descendo da cadeira e me dando um beijo na testa. Esse beijo a turma não me perdoou, durante muito tempo fui vítima da maior gozação: diziam que dona Risoleta estava querendo me namorar.
        Deste episódio nasceu uma brincadeira que passamos a fazer em toda aula de religião, duas vezes por semana. Alguém trazia uma barata viva dentro de uma caixa de fósforos vazia, para soltar na sala de aula entre as carteiras, até que um aluno denunciasse a sua presença. Quando não era a dona Risoleta que soltava um gritinho:
        - Uma barata!
        (...)
        Um dia ela foi reclamar providências da diretora, dizendo que o prédio era velho, estava precisando de uma limpeza em regra, vivia cheio de baratas. Naquele tempo não havia dedetização, de modo que a diretora não tomou providência nenhuma, nunca tinha visto barata na escola. Aquilo eram fricotes de Dona Risoleta.
        E a coisa ficou por isso mesmo, de vez em quando aparecendo uma baratinha, para alegrar a aula de religião. Houve uma que subiu pela perna da professora e foi se esconder debaixo da sua roupa. A mulher deu um pulo de três metros de altura se sacudindo toda, aos berros, como se estivesse louca, por pouco não se atirou pela janela.
        Até que o Dico um dia esqueceu na carteira uma caixa de fósforos com a barata dentro. Sem saber para que diabo aquele aluno havia de ter trazido fósforos de casa, se todos nós éramos crianças, não fumávamos, dona Risoleta, curiosa, abriu a caixa. A barata saltou em sua cara num voo aflito, largando pedaços de asas no ar, e se refugiou nos seus cabelos. A coitada só faltou desmaiar de susto. Saiu correndo feito doida com barata e tudo e foi nos denunciar à diretora.
        O Dico acabou suspenso por uma semana, como responsável por todas as baratas que já tinham aparecido. Com isso, ficou sob ameaça de perder o ano, por falta de frequência.


SABINO, Fernando. Do livro O Menino no espelho. 2. ed.
Rio de Janeiro, Record, s.d. p.112-5. (Título nosso)

      Antes de responder às questões propostas, leia atentamente as explicações e exemplos abaixo.

DESCRIÇÃO
      Descrever é procurar recriar na imaginação de nosso leitor a imagem de um ser qualquer (um homem, um animal, um objeto, um lugar, um ambiente), através de uma detalhada enumeração das suas características.
      Quando uma descrição é bem-feita, nosso leitor (ou ouvinte) consegue imaginar como é o ser por nós descrito, mesmo sem tê-lo diante dos olhos.
       Podemos descrever um personagem não apenas fisicamente, dando suas características exteriores, mas também através de suas ações, suas opiniões, seu caráter, seus gostos, seus sentimentos e emoções, seu modo de ser (caracterização psicológica).
        Só para comprovar o que dissemos, veja dois bons exemplos de descrição retirados do livro Amarelinho, de Ganymedes José:

DESCRIÇÃO FÍSICA:
         Magro, miúdo e desconjuntado, joelhos que pareciam bolas de tênis, loirinho anêmico de olhos azuis descorados – parecia nem ter sangue. Por isso, tinha o apelido de Amarelinho.

DESCRIÇÃO PSICOLÓGICA:
         O Nanico? Apesar de pequeno era esperto como o diabo. Ele sempre arrombava as fechaduras ou, tirando os pinos das dobradiças, abria as portas. Contava que, uma vez, tinha feito uma bomba. Podia ser verdade, O Nanico tinha uma cuca ótima, consertava até rádio. Como aquele que tinha roubado de um fusquinha.
                           GANYMEDES JOSÉ. Amarelinho. São Paulo, Moderna, 1983. p,7-8.

Entendendo o texto:
01 – Onde se passa a história desse texto?
     Em uma sala de aula.

02 – Refaça com elementos do texto uma descrição física de dona Risoleta.
      Magrela que parecia galho seco e usava óculos de lentes grossas.

03 – Refaça também a descrição psicológica de dona Risoleta.
      Era antipática, ranzinza e tinha horror de baratas.

04 – O que aconteceu na classe que acabou gerando um grande rebuliço?
      Um dia apareceu uma barata e os alunos descobriram que dona Risoleta tinha verdadeiro horror de baratas.

05 – Qual foi a reação de dona Risoleta?
      Soltou um grito, apontou a bichinha com dedo trêmulo e subiu na cadeira, pedindo para os alunos matarem a barata.

06 – Como o autor descreve a barata?
      Era uma barata grande, daquelas cascudas.

07 – Ironicamente, como o autor descreve a barata ao tentar escapar dos meninos?
      E a coitada, feita barata tonta, escapando por entre nossas violentas patadas no chão.

08 – Qual a atitude do personagem-narrador e quais as consequências para ele?
      Ele teve a sorte de dar com ela passando a correr entre seus pés e esmigalhou-a numa pisada só. Foi aclamado com herói e dona Risoleta lhe deu um beijo na testa e a turma não me perdoou, dizendo que dona Risoleta estava querendo me namorar.



         

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