quinta-feira, 21 de setembro de 2017

TEXTO: REPUTAÇÃO ILIBADA - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO

REPUTAÇÃO ILIBADA
        
    Há, no Brasil, cargos para os quais a lei exige reputação ilibada, ou seja, fama ou renome sem mancha. 


Servem de exemplo ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e do STJ (Superior Tribunal de Justiça).

        Para outros, o que é verdadeiro paradoxo criado pelo constituinte de 1988, reputação ilibada não basta, pois para o ministro do Tribunal de Contas da União a Constituição também impõe a idoneidade moral. Não é fácil explicar para que serve a dupla imposição, quando dispensada nas duas mais importantes cortes judiciárias do país. Sugeriria a insuficiência da reputação sem mácula, o que levaria ao absurdo.

        As distinções oferecem outras curiosidades. Os ministros do STF e do STJ devem ter notável saber jurídico, mas basta, para os do Tribunal de Contas da União, o notório conhecimento jurídico, entre outras qualidades.
A distinção é inócua, embora os juristas digam que a lei não contém vocábulos inúteis. Saber e conhecimento, tanto quanto notável e notório, são palavras ocas. Dependem dos valores subjetivos de quem as aplique.
Para presidente da República, para deputado e senador, nada disso é exigido. Eleitos pelo voto popular, submetem-se a variáveis limites de idade. Não carecem de saber ou conhecimento. Basta que não sejam analfabetos. O presidente da República deve cumprir a lei e manter a probidade administrativa, mas nem sequer pode ser processado por crimes comuns, como aconteceria com o adultério não perdoado pela mulher.
Nos Estados Unidos, sob desculpa de exigirem reputação ilibada de seu presidente, os discursos moralistas esquecem a história.
Clinton errou e errou feio, mas não está só. Houve líderes de porte, mas maridos nem sempre fidelíssimos, como Roosevelt e John Kennedy, este com a vantagem do inegável bom gosto. (…)

        A palavra decoro tem uma certa vantagem para definir o que se espera dos líderes políticos. É lamentável que, muitas vezes, decoro seja confundido com a ação que, embora irregular, termina sem ser descoberta. No processo por ofensa ao decoro, o senso de justiça se afoga na valoração política e no escândalo da mídia, interferindo contra ou a favor do acusado.

(Walter Ceneviva, Folha de S. Paulo, 12/09/99)



1)   O fragmento em que o autor explica o “verdadeiro paradoxo criado pelo constituinte de 1988” é:
a) “…quando dispensada nas duas mais importantes cortes judiciárias do país”
b) “…a lei exige reputação ilibada, ou seja, fama ou renome sem mancha.”
c) “Servem de exemplo ministros do STF (Supremo Tribunal Federal e do STJ (Superior Tribunal de Justiça)”
d) “as distinções oferecem outras curiosidades”
e) “a distinção é inócua…”

2)   “Dupla imposição”, no texto, refere-se:
a) a leis emanadas das duas mais importantes cortes judiciárias do país
b) à redundância entre fama e renome sem mancha
c) à exigência de reputação ilibada e idoneidade moral.
d) às penas aplicadas pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Superior Tribunal de Justiça
e) às atribuições dos ministros do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal de Contas da União

3)   “Dependem dos valores subjetivos de quem as aplique” significa
a) modificam os valores de quem as enuncia.
b) têm seus sentidos fixados apenas nos dicionários.
c) tomam significado de acordo com padrões individuais.
d) referem-se àqueles que a utilizam.
e) caracterizam-se pela univocidade.


4)   Leia o fragmento abaixo. “É lamentável que, muitas vezes, decoro seja confundido com a ação que, embora seja irregular, termina sem ser descoberta.” A intenção do autor é:
a) ignorar a dicotomia pensamento/ação.
b) legitimar o duplo sentido da palavra decoro.
c) confundir decoro com punibilidade.
d) denunciar a hipocrisia na preservação do decoro.
e) dissociar o senso de justiça da valoração política.

5)   Os elementos que estabelecem a coesão entre o 1º e o 2º parágrafos e entre o 2º e o 3º são, respectivamente:
a) “embora” e “como”.
b) “também” e “mas nem sequer”
c) “mas” e “probidade administrativa”
d) “entre outras qualidades” e “de quem”
e) “outras curiosidades” e “nada disso”.




UM APÓLOGO - MACHADO DE ASSIS - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO

Um Apólogo
                Machado de Assis

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
       — Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
       — Deixe-me, senhora.
       — Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
       — Que cabeça, senhora?  A senhora não é alfinete, é agulha.  Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
       — Mas você é orgulhosa.
       — Decerto que sou.
       — Mas por quê?
       — É boa!  Porque coso.  Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
       — Você?  Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
       — Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
       — Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
       — Também os batedores vão adiante do imperador.
       — Você é imperador?
       — Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.  Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
        — Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?  Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:
       — Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas?  Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: 
       — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:
        — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
 
Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.
 DEPOIS DE LER O TEXTO, FAÇA O QUE SE PEDE.
1-O QUE É UM APÓLOGO? CONSULTE O DICIONÁRIO. DE ACORDO COM O SIGNIFICADO DADO À PALAVRA, VOCÊ CONHECE ALGUM OUTRO APÓLOGO? QUAL?
      É uma narrativa alegórica para ocultar uma verdade, em que falam animais ou seres inanimados. A segunda resposta é pessoal.

2- RELACIONE AS COLUNAS, USE O DICIONÁRIO, SE NECESSÁRIO.
A- SUBALTERNO    (E) CÃO PERNALTO E ESGUIO PRÓPRIO   PARA A  CAÇA DE LEBRES, É O MAIS RÁPIDO DOS CÃES;

B- OBSCURO             (D) COSTURO;

C- ÍNFIMO                  (H) AQUELES QUE ABREM CAMINHO;

D- COSER                  (I)DE QUALIDADE MÉDIA OU INFERIOR, VULGAR, COMUM

E- GALGO                  (C) MUITO PEQUENO,INFERIOR, VULGAR,O MAIS  BAIXO DE TODOS;

F- MELANCOLIA        (A) SUBORDINADO, INFERIOR, SECUNDÁRIO;

G- ALTIVA                  (G) ORGULHOSO, ARROGANTE, VAIDOSO;

H- BATEDORES        (F) ABATIMENTO, DESÂNIMO, TRISTEZA;

I- ORDINÁRIA            (B)SOMBRIO, POUCO CONHECIDO, INDECIFRÁVEL.

3- “ERA UMA VEZ” PODE SER SUBSTITUÍDA POR QUAL OUTRA EXPRESSÃO DE SEMELHANTE SIGNIFICADO? NORMALMENTE QUE TIPO DE NARRATIVA INICIA-SE COM ESSA EXPRESSÃO?
      Pode ser substituída por “Um dia.”. É um conto.

4- A EXPRESSÃO “AGULHA NÃO TEM CABEÇA” NA LINGUAGEM CONOTATIVA PODE SER ENTENDIDA COMO:
      Não tem juízo.

5- DE ACORDO COM O TEXTO, O QUE SIGNIFICA: “DAR FEIÇÃO AOS BABADOS”?
      É dar crédito as fofocas.

6- QUAL O TEMA DISCUTIDO NO TEXTO? ASSINALE A(S) ALTERNATIVA(S) CORRETA(S).
(X) O ORGULHO; (X) A VAIDADE; (  ) A HUMILDADE;  (   ) A MODÉSTIA; (  ) A BONDADE;  (  ) A SIMPLICIDADE; (X) EGOÍSMO; (X) PREPOTÊNCIA.

7-  DEPOIS DE RELER O TEXTO ATENTAMENTE, DIGA:
A-    QUE TIPO DE NARRADOR O TEXTO APRESENTA? ATENTE PARA POSSÍVEL MUDANÇA DE FOCO NARRATIVO. JUSTIFIQUE SUA RESPOSTA.
Narrador-personagem. O mesmo tempo que narra o texto ele é o personagem.

B-    ESPAÇO TEMPORAL (QUANDO):
Durante o dia.

C-   PERSONAGENS:
A agulha, a linha e o alfinete.

D-   ESPAÇO FÍSICO (ONDE):
Na casa da baronesa.

E-    FOI UTILIZADO O DISCURSO DIRETO? COMPROVE:
Sim. “Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco?”

8- DE ACORDO COM O TEXTO, QUEM ERA ORGULHOSA E POR QUE O ERA?
       Era a linha, porque ela é que estava no vestido da baronesa, que iria passear.

9- “SILENCIOSA E ALTIVA” SÃO QUALIDADES ATRIBUÍDAS A QUEM?
       A linha.

10- HÁ, NO TEXTO, USO DE VOCATIVO? COMPROVE SUA RESPOSTA COM UM TRECHO DO TEXTO, CASO SUA RESPOSTA SEJA POSITIVA.
      Sim. “Anda, aprende, tola. Cansaste em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí fica na caixinha de costura.”

11- RETIRE DO TEXTO, A ONOMATOPEIA UTILIZADA PELO AUTOR E DIGA O QUE ELA ESTÁ REPRESENTANDO.
      “Não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano”. Que o serviço de costura tinha terminado aquele dia.

12- IDENTIFIQUE:
A-  A PERSONAGEM QUE JULGA O TRABALHO IMPORTANTE, POIS É NELE QUE ESTÁ O SENTIDO DE SUA VIDA:
A agulha.

B-  A PERSONAGEM CUJO INTERESSE É O RESULTADO DO TRABALHO, OS ELOGIOS, FESTAS, O GLAMOUR:
É a linha.

C-  PERSONAGEM QUE SE AUTO AFIRMA INTELIGENTE:
O alfinete.

13- QUEM DE FATO É POSSUIDOR DO FAZER, QUE COMANDA O PROCESSO DE PRODUÇÃO:
      (    ) A AGULHA; (   ) A LINHA; (X) A COSTUREIRA.

14- AGULHA, LINHA, BARONESA, COSTUREIRA: ESTABELEÇA TRAÇOS COMUNS ÀS PERSONAGENS MENCIONADAS.
      Resposta pessoal do aluno.

15- QUANTO AO “PROFESSOR DE MELANCOLIA”, PODEMOS CONCLUIR QUE ELE:
(X) ESTAVA SEMPRE SE DANDO MAL;
(X) QUE ERA FREQUENTEMENTE PASSADO PARA TRÁS;  
(X) SENTIA-SE INJUSTIÇADO; 
(   ) RECEBIA O RECONHECIMENTO QUE JULGAVA MERECER; 
(   ) ERA FELIZ PORQUE TINHA SEU TRABALHO VALORIZADO.

16- LINHA E AGULHA ERAM SEMELHANTES PORQUE:
(   ) AMBAS ERAM HUMILDES;
(X) AMBAS ERAM ORGULHOSAS;
(   ) AMBAS ERAM TRABALHADORAS; 
(X) AMBAS ERAM VAIDOSAS.

17- O QUE VOCÊ ACHA QUE SIGNIFICA “SERVIR DE AGULHA PARA MUITA LINHA ORDINÁRIA”?
      Resposta pessoal do aluno.



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

TEXTO: A NOVA E A VELHA ÁFRICA - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO

A NOVA E A VELHA ÁFRICA

        “Há sempre algo de novo em África”, disse o escritor romano Plínio. O aparecimento de novos Estados africanos nas últimas décadas origina frequentemente notícias de primeira página nos jornais, mas as tradições deste continente são tão antigas como quaisquer outras, e algumas das mais remotas formas de vida humana foram recentemente descobertas no vale do Grande Rift, na África Oriental. Existem ainda sobreviventes das raças de pigmeus e bosquímanos, povos dos mais antigos da história humana. E, por detrás das modernas doutrinas políticas, há inúmeros mitos e lendas que constituem parte fundamental da maneira de pensar das populações africanas.
        A África é um vasto continente, que se divide naturalmente em duas partes principais. O chamado Norte de África, que se estende do Egipto a Marrocos, e da foz do Nilo até à Etiópia, pertence na sua maior parte ao mundo mediterrânico e tem como religiões básicas o Cristianismo e o Islamismo, que determinam mentalidades e histórias próprias. O deserto do Saara e as florestas tropicais formavam uma barreira intransponível aos europeus, que procuravam conhecer o resto da África, até que os portugueses, na saga dos descobrimentos, contornaram o cabo da Boa Esperança, no final do século XV.
        [...]
        As mitologias grega e indiana são apoiadas por vasta literatura, nascida de tradições orais preservadas em livros, escritos ao longo dos séculos. Para se ficar a conhece-las, é suficiente ler essas obras. No estudo da mitologia africana surge logo à partida um obstáculo de monta: não há livros antigos. Há incontáveis histórias, já que todas as raças africanas adoram conta-las, mas que nunca foram passadas ao papel até aos tempos modernos. E mesmo as coleções hoje existentes estão incompletas.
        [...]
        Como a arte era a única “escrita” conhecida em toda a África Tropical, foi usada para interpretar a vida em todos os seus aspectos. Foi aplicada na vida religiosa, que aliás não se dissociava de outras facetas da vida, para dar significado e função espiritual a objetos destinados em cerimónias ou mesmo em ritos individuais. Foi usada para ilustrar provérbios e para expressar a sabedoria popular. Deste modo, a arte africana proporciona uma espécie de literatura sacra, realçando a beleza e a solenidade da face do homem. É profundamente expressiva e, no entanto, modesta. Não existem grandes templos desafiando os céus, pois a falta de pedras macias e a inexistência de explosivos para quebrar as rochas graníticas eram realidades inelutáveis. A arte africana preocupa-se com a vida humana: os rostos e imagens retratam a natureza do homem e as suas atividades. O homem e a mulher como um casal, às vezes como gémeos, indicam o núcleo da família africana; mesmo quando a poligamia é prática corrente, o casal continua a ser a unidade básica. A interdependência entre o homem e a mulher é fielmente retratada, tanto na escultura como na mitologia.

     Geoffrey Parringer. África; Biblioteca dos grandes mitos e lendas universais.
                              Trad. Raul de Sousa Machado. Lisboa: Verbo, 1987 p. 7-9.

1 – Qual a grande contradição atual do continente africano?
      A convivência simultânea do artigo (mitos, lendas maneiras de pensar) com o moderno (novas doutrinas políticas).

2 – Que descobertas recentes obrigaram o mundo ocidental a repensar seu preconceito contra a África?
      As mais remotas formas de vida humana foram encontradas em escavações na África.

3 – Veja a frase: Por ser uma sociedade ágrafa, a África não pôde preservar suas tradições. Você concorda com essa afirmação? Por quê?
      Resposta pessoal do aluno. O aluno deverá descordar, uma vez que, mesmo não tendo escrita, a cultura africana preservou-se por meio da oralidade ou da arte.

4 – Qual o papel da arte na cultura africana?
      A arte tornou possível a interpretação da vida africana em todos os seus aspectos.

5 – O que o caráter humanístico da arte africana nos revela sobre esse povo?
      A beleza, a grandeza do africano está na sua simplicidade e religiosidade.

6 – “Traduza” a palavra poligamia a partir dos radicais gregos que a compõem.
      Poli = muitos; gamia = casamento.

7 – O que os adjetivos intransponível e inelutável têm em comum? O que poderia facilitar a compreensão do significado dessas palavras?
      Ambos têm prefixo in -, indicando negação, e sufixo –vel, indicando possibilidade de praticar ou sofrer uma ação. Detendo-nos no radical, poderíamos entender as palavras como: intransponível = o que não pode ser transposto; inelutável = aquilo contra o que não se pode lutar.

8 – Encontre no texto uma palavra cujo plural não segue a orientação geral e não aparece no final. Procure descobrir como essa palavra se formou para entender o plural diferente.
      A palavra quaisquer tem plural em seu interior e não no final porque é formada pelo pronome qual (que faz plural quais), seguido do verbo querer conjugado no presente do indicativo.

9 – Você já trabalhou com textos expositivos nas séries anteriores. Já sabe, portanto, que determinadas construções são comuns nesse tipo de texto. É o caso de frases formadas com o verbo haver, empregado com o sentido de existir, e com verbos na voz passiva. Identifique no texto frases em que isso ocorre e explique em seu caderno as razões do emprego desse tipo de construção.
      “... há inúmeros mitos e lendas que constituem...”; “Há incontáveis histórias...”; “Foi usada para interpretar a vida”; “Foi aplicada na vida religiosa...”
      Nos textos expositivos, costumam-se afirmar fatos sem atribuí-los a um sujeito gramatical, como se eles tivessem vida própria. Daí o emprego constante do verbo haver, no sentido de existir. O emprego do sujeito paciente, na voz passiva, também se justifica pelo fato de não se julgar importante citar o agente da ação, frequentemente omitido nesse tipo de construção sintática.

10– O trecho do livro África que você leu foi traduzido em Portugal.
Identifique nele uma construção típica da sintaxe lusitana. Reescreva-a de forma abrasileirada.
“Para se ficar a conhece-las, é suficiente ler essas obras.” No brasil, seria mais comum dizer-se: Para que se possa conhece-las, é suficiente ler essas obras. Comentar o emprego do infinitivo em Portugal em construções do tipo: Estou a estudar a África por exemplo, enquanto aqui no Brasil usamos o gerúndio: Estou estudando a África. Justificar as diferenças na pronúncia, no léxico e na sintaxe do português de Portugal para o nosso.

11 – Você conhece palavras pertencentes ao português de Portugal que não são aqui utilizadas ou que no português do Brasil têm outro significado? Cite algumas, se souber.

      Resposta pessoal do aluno.

TEXTO: DOIS NO CORCOVADO - DRUMMOND - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO

DOIS NO CORCOVADO

        O sol apareceu, como no primeiro dia da Criação. E tudo tinha mesmo ar de primeiro dia da Criação, com o mundo a emergir, hesitante, do caos. Três dias e três noites a tempestade esmigalhara árvores, pedras, casas, caminhos, postes, viadutos, veículos, matara, ferira, enlouquecera. Vistas do alto, as partes esplêndidas da cidade continuavam esplêndidas, mas entre elas as marcas de destruição exibiam-se como chagas de gigante Os homens entreolharam-se. Estavam salvos. Salvos e ilhados no alto do Corcovado.
        A estrada tinha acabado, o telefone tinha acabado, a energia tinha acabado, e, por azar, não havia rádio de pilha para pegar notícias. Decerto, lá embaixo providenciavam a recuperação das estradas, mas quando se lembrariam deles, pequena fração humana junto da estátua? Daí, lá tem bar, um bar dispõe de lataria e garrafas para um ano. Não, um ano é demais, até uma hora é demais para eles que passaram meia semana isolados e fustigados pelo aguaceiro entre céu e terra.
        Os mais moços não quiseram esperar, foram abrir caminho a golpes de imprudência. Mocidade pode mais o impossível do que o possível – e descer naquelas condições era mesmo coisa de doido. Com certeza chegaram a salvamento, como acontece aos doidos. Os que ficaram sentiram inveja e despeito. A turma de trabalhadores não vinha remover as barreiras caídas. O dia passou. A noite foi inquieta. Parentes lá embaixo esperavam aflitos, se é que não tinham morrido.
        A mais bela paisagem do mundo – dizem os cartazes de turismo; eles também achavam que sim, mas como suportá-la na manhã seguinte, se a vista aumentava a angústia, pela impossibilidade de alcançar aqueles sítios, pura miragem?
        --- E vem um helicóptero! – gritou alguém, e veio mesmo, mas passou sem pousar; ia revezar a turma da torre da Radiopatrulha, mais adiante. O pessoal do Cristo que se pegasse com Cristo, a cuja sombra trabalha – pensariam talvez as pessoas que, embaixo, cuidavam de tudo.
        Dos dez que ganham a vida na montanha, seis já tinham descido. Os quatro restantes, enervados, não tinham mais de que conversar. O sol brilhando, a cidade se refazendo, eles presos ali, prisão sem grade, à espera de serem lembrados. O pico virou ilha, tudo mais era oceano sem navio.
        Dois não aguentaram mais; despediram-se como presidiários antes de tentar a fuga. Prometeram levar notícias dos que ficaram: o gerente e o garçom do bar.
        Estes, por acaso, moram no mesmo subúrbio: Cachambi. Olham sempre na mesma direção, como se, por absoluto, quisessem distinguir o aceno de mão longínqua. Isto os reúne mais; desfaz um vínculo e cria outro, espontâneo. O gerente não é mais um velho patrão, o outro não é mais empregado. Vivem uma só experiência, fora das leis de trabalho. E se o garçom tentasse descer? Ainda é forte, pode tentar. “Você não tem obrigação de me fazer companhia”. Mas ele não tenta, para não abandonar o outro: “Não iria deixar o senhor sozinho”. O gerente nunca imaginara ouvir uma coisa dessas. O próprio garçom ficou espantado depois que a disse. Era pra valer. Amanhã ou depois serão recolhidos – sabemos nós, não eles. Tempo não se mede pelo relógio, mas pelo vácuo de comunicação, pela expectativa sem segurança. E nessa situação, insignificante para nós, ilimitada para eles, dois homens descobrem-se um ao outro.

                       Carlos Drummond de Andrade. Elenco de cronistas modernos.
                                     Rio de Janeiro: José Olympio, 1979. p. 248-250.

1 – Embora o narrador do texto só venha a se colocar no último parágrafo (“sabemos nós”), durante todo o texto sentimos que ele está muito próximo de nós, leitores. O que provoca essa sensação?
       O fato de fazer reflexões sobre o fato narrado, como se estivesse trocando ideias com alguém.

2 – No início do texto, há uma comparação. Baseado em que o autor faz essa comparação?
       Ele compara a paisagem vista do alto do Corcovado ao primeiro dia da criação devido aos caos: a forte tempestade destruíra tudo.

3 – Observe que o autor faz uma referência à Criação do mundo, de forma semelhante à que ocorre nos mitos cosmogônicos. O que, no final da crônica, nos autorizaria a pensar numa nova criação, também, do homem?
      Um novo homem, mais solidário, surge diante da adversidade enfrentada. Em tal situação, as relações passam a ser mais verdadeiras e se estabelecem em torno de sentimentos e não em torno de formalidades (como as que existem entre patrão e empregado).

4 – Veja: “O pessoal do Cristo que se pegasse com Cristo”. Como você escreveria, de modo diferente, este possível pensamento das pessoas?
       Resposta pessoal do aluno. Comentar a forma inusitada com que o autor escreve o texto.

5 – Em “descer naquelas condições era mesmo coisa de doido. Com certeza chegaram a salvamento, como acontece aos doidos”, você concorda com a afirmativa do autor?
       Resposta pessoal do aluno. Considerar, contudo, que, em geral, os mais ousados, ou mais arrojados, conseguem atingir seus objetivos.

6 – Comente o aposto utilizado pelo autor no segundo parágrafo.
       “Pequena fração humana” é a forma como o autor se refere às pessoas que se encontram ao pé de Cristo. Foi uma forma interessante de designar os seres humanos e estabelecer um contraste entre eles e a grandeza e magnitude do Corcovado.

7 – Nos textos que você leu anteriormente, um novo universo se descortinava para as personagens. No caso deste texto, o que mudou (“Vivem uma só experiência, fora das leis de trabalho”) na vida do gerente e do garçom?
       Para eles, também, um novo universo abriu-se: Cada um passou a enxergar o outro de maneira diferente. Descobriram, no outro, um novo universo e explorar.

8 – Que relações podem ser estabelecidas entre os três textos desta unidade, com relação à passagem do tempo?
       “Tempo não se mede pelo relógio, mas pelo vácuo de comunicação, pela expectativa sem segurança.”

9 – Prazer e dor estão presentes no texto. Como essas sensações aparecem?
       As personagens sentem a dor do isolamento, uma vez que estão ilhadas; ao mesmo tempo os homens redescobrem o prazer de conhecer um ao outro.




O QUE É EDUCAÇÃO? CLAUDINO PILETTI - COM INTERPRETAÇÃO/GABARITO

O QUE É EDUCAÇÃO?

        Podemos começar a pensar sobre educação analisando o seguinte fato histórico:
        Por ocasião do tratado de Lancaster, na Pensilvânia (Estados Unidos), no ano de 1744, entre o governo da Virgínia e as seis nações indígenas, os representantes da Virgínia informaram aos índios que em Williamsburg havia um colégio dotado de fundos para a educação de jovens índios e que, se os chefes das seis nações quisessem enviar meia dúzia de seus meninos, o governo se responsabilizaria para que eles fossem bem tratados e aprendessem todos os conhecimentos do homem branco.
        A essa oferta, o representante dos índios respondeu:
        “Apreciamos enormemente o tipo de educação que é dada nesses colégios e nos damos conta de que o cuidado de nossos jovens, durante sua permanência entre vocês, será custoso. Estamos convencidos, portanto, de que os senhores desejam o bem para nós e agradecemos de todo o coração.
        “Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas e, sendo assim, os senhores não ficarão ofendidos ao saber que a vossa ideia de educação não é a mesma que a nossa.
        “[...] Muitos dos nossos bravos guerreiros foram formados nas escolas do Norte e aprenderam toda a vossa ciência. Mas, quando voltavam para nós, eles eram maus corredores, ignorantes da vida da floresta e incapazes de suportar o frio e a fome. Não sabiam como caçar o veado, matar o inimigo e construir uma cabana, e falavam a nossa língua muito mal. Eles eram, portanto, totalmente inúteis. Não serviam como guerreiros, como caçadores ou como conselheiros.
        “Ficamos extremamente agradecidos pela vossa oferta e, embora não possamos aceita-la, para mostrar a nossa gratidão oferecemos aos nobres senhores da Virgínia que nos enviem alguns dos seus jovens que lhe ensinaremos tudo o que sabemos e faremos, deles, homens”.

                               (Extraído de um texto escrito por Benjamim Franklin.)
       Claudino Piletti. Didática geral. São Paulo: Ática, 1989. p. 10-1.

1 – O que o representante dos índios entende por “educação” se assemelha à ideia que Rubem Alves tenta transmitir com seu texto? Em quê?
      Sim. Ambos pensam a educação como algo natural, atrelado a um determinado contexto cultural, que faça sentido para o educando e que tenha imediata aplicação em sua vida real.

2 – Como o representante dos índios consegue recusar o convite sem ofender os brancos?
      Ele elogia a iniciativa dos brancos, o sistema de ensino deles e agradece pelo empenho do governo.

3 – Na sua opinião, os brancos aceitariam a oferta dos índios? Justifique sua resposta.
      Resposta pessoal do aluno.

4 – O que o representante dos índios pretendia ao afirmar: “Mas aqueles que são sábios reconhecem que diferentes nações têm concepções diferentes das coisas”.
       Foi uma estratégia de convencimento. Caso o governo se ofendesse com a recusa, seria a demonstração de que os governantes não eram sábios.

5 – Rubem Alves tem uma ideia do que seja um homem sábio. É a mesma ideia que está presente na resposta do índio à oferta dos brancos?
       Sim, ambos têm a mesma ideia. Para eles, sábio é aquele que tem o discernimento para aceitar as razões do outro e usa o conhecimento para tomar as decisões mais acertadas.

6 – Se você recebesse uma resposta como essa, ficaria convencido e daria razão ao índio? Por quê?
       Resposta pessoal do aluno.